• Driele Quinhoneiro

Relato de uma nutricionista da abordagem não-dieta

Como a água que sempre encontra o caminho. Inicio esse texto confiante de que algo aqui dentro tem muito a dizer sobre uma nutricionista não dieta, eu diria que começo por querer um nome mais poético para meus dias de trabalho “facilitadora da liberdade”, isso sim soa algo que gostaria de fazer por muitos anos.


Existe uma resistência de voltar ao início da história, mas penso que pode ser válido para você aí do outro lado da tela. Cursei nutrição em uma universidade conhecida e que tem como base a nutrição tradicional. Desde o começo algo não ressoava aqui dentro e por isso no primeiro ano da faculdade passava todos os intervalos no laboratório de biologia celular e molecular. Ainda hoje consigo me lembrar da calma da sala limpa (espaço onde interagimos com as culturas de células). Um salto grande na história. Vamos pular para o momento em que eu estava recém formada, sofria muito com o corpo e a comida e não conseguia prescrever dietas para minhas clientes (Confissão: depois que me formei não consegui calcular nenhuma vez dieta para uma paciente nos famosos programas de cálculo).


Quase afogando em tudo isso vi a frente uma boia e a curiosidade me levou a Mindfulness e Mindful Eating. Depois das formações profissionais nos programas baseados em Mindfulness comecei a atuar como instrutora. Mas e a nutricionista? E a facilitadora da liberdade? Para onde ela iria. Com essas dúvidas chegaram os desafios em transitar do que aprendi na faculdade para um atendimento nutricional não-dieta.


No início a mente começou a negociar e pouco a pouco se formou algo que parecia estar livre da mentalidade da dieta, mas ainda soa estranho. O desconforto está ali e houve uma tentativa de achar que é possível sim falar de dietas não tão restritivas e mindful eating. Para algumas clientes que estavam mais abertas eu falava do comer consciente, àquela mais fechadas eu ficava perdida sobre o que fazer e me perguntava? “Será que eu começo com metas mais suaves e depois apresento Mindful Eating?”, mas de alguma forma isso não funcionava.


Até que chegou um dia em que eu sabia o que precisava ser feito. HORA DE DEMOLIÇÃO. Nesse momento coloquei os alicerces para baixo e nem preciso te dizer o quanto isso levantou poeira. Estou rindo um pouco agora, mas naquele momento isso me deu muito medo. Eu olhava em volta e não via um palmo a frente e esse estava sentada na cadeira chamada CONFUSÃO. E nesse lugar da confusão faltava algo: a habilidade de validar e se permitir estar nela. (ps. não treinamos muita essa habilidade já que precisamos sempre saber).

Depois da demolição e quando a poeira começou a abaixar notei um lugar espaçoso. Era possível respirar ali. E decidi como grande parte das pessoas quando tem muito espaço, começar a plantar algumas coisinhas. Algo precioso que poderia te dizer agora é que trabalhar na construção da base não-dieta foi o passo mais importante que dei naquele momento. Podemos pensar em raízes também. A primeira explicação é que vivendo em uma sociedade de dieta e pressão estética, em que milhares de mulheres morrem para ter o corpo perfeito, nossas raízes precisam ser fortes. E precisam ser fortes porque no consultório as pacientes vão experimentar o senso de confiança, e quem sabe pela primeira vez, através das nossas raízes.

Finalizo esse texto com dois ingredientes essenciais para iniciar essa transição ou continuar a transição para trabalhar como nutricionista não-dieta:

  1. Valide a confusão. Permita sentar-se um pouco enquanto olha a poeira dos alicerces destruídos, note a cor, o movimento e quem sabe até o cheiro. Diga a ela “Seja bem-vinda confusão”. Como disse o poeta Rumi “Ela pode estar limpando você para a chegada de um novo deleite”

  2. Faça a si mesma uma pergunta poderosa: "Isso tem origem restritiva?”. Você pode se perguntar e checar as suas falas, suas postagens, seus pensamentos, comportamentos e outros. E é essencial se fazer essa pergunta sem julgamento. O questionamento gentil nos traz clareza dos alicerces ou das ervas daninhas que continuam a crescer mesmo no campo do comer consciente.

Que esse texto possa ajudar você a brotar o senso de confiança do comer mais amoroso.

Com Carinho, Driele.


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