• Driele Quinhoneiro

Será que temos confiança o suficiente para trabalhar com a abordagem sem dietas?

Podemos pensar na cultura da dieta como uma ilha que todas nós vivemos, nessa ilha existe um sofrimento enorme, há demonização de alimentos, pessoas presas às regras, pessoas que não gostam da comida que comem, muita culpa e vergonha. Ali o sofrimento é comum e podemos dizer que é simplesmente como as coisas são há tempos. Pouco a pouco começa a surgir rumores carregados de ciência sobre as dietas não funcionarem. Somado a isso, uma constatação de que fazer dieta causa grande parte dos problemas e, por décadas, foi alimentando o equívoco de que falhamos nas dietas quando na verdade todo esse tempo é ela que tem falhado conosco.


Então algumas loucas começam a planejar e se juntar para escapar dessa ilha, ao mesmo tempo nadar em alto mar é muito assustador. Até que a ideia de que existe outra forma de se relacionar com a comida e o corpo passa a ser irresistivelmente sedutora. E assim mulheres se lançam no mar. Você já viu como são as ondas próximas a praia? Especialmente nessa ilha são enormes com a intenção de manter suas moradoras presas por muito tempo. Já na água a primeira, terceira, quarta onda começam a chegar, bebemos um pouco de água, vem o medo e o pensamento de desistir e voltar para areia, mas algo que não sabemos muito bem nos mantém nadando, até que enfim chegamos em um lugar em que é possível flutuar e aproveitar a luz do sol.


Esse lugar tem um som característico como um Ahhhhhh que bom que decidir sair daquela ilha.

Como profissionais da área da saúde não podemos ficar para sempre flutuando e satisfeitas de apenas nos libertarmos das dietas, precisamos voltar para a ilha e guiar nossas clientes/pacientes em direção a real saúde. E ai que muitos desafios surgem: temos confiança o suficiente para guiá-las para além das ondas? Temos práticas e aceitação para vê-las bebendo água quando chega uma onda forte? Temos uma visão clara para ajudá-las vislumbrar o que há depois das ondas? Treinamos nosso fôlego para ajudá-las quando as regras externas e autocritica as deixarem machucadas demais para continuar?


Não me entenda mal, não somos as grandes heroínas que irão salvar todas as pessoas, seria ilusão nos ver dessa maneira. No entanto, existe uma grande contribuição em profissionais da área da saúde desenvolverem bases firme para que dentro da consulta tenha apenas uma pessoa insegura de entrar na água.


Gosto de pensar que no início podemos transbordar nossa confiança para que a paciente sinta como é, e assim ela saiba reconhecer isso em outros lugares e crie a própria confiança a partir das experiências pessoais.

Chegamos a um ponto central, a confiança é construída a partir das vivências, pode ser que no início entrar no mar seja um salto de fé, mas continuar nadando requer outras habilidades. Quando uma paciente é guiada em uma prática para reconhecer a fome física no corpo e percebe isso, as primeiras faíscas da confiança começam a surgir.


Segue uma lista de exemplos de vivências que desenvolvem confiança:

  • Quando a pessoa começa a suavizar as listas de alimentos proibidos e permitidos e percebe que com o tempo não come quantidade enormes dos alimentos tidos como proibidos, como imaginava, e na verdade nota que a preocupação e pensamentos sobre esse alimento diminui.

  • Quando a pessoa abre a geladeira e checa o corpo e percebe que o que o corpo quer comer é diferente do que a mente quer comer, e aí nesse momento existe uma escolha, não quer dizer que há um certo e errado, mas finalmente poder escolher é libertador

  • Quando a pessoa percebe a diferença das sensações do corpo entre comer até o ponto de ficar confortavelmente cheia e desconfortavelmente cheia

  • Quando a pessoa percebe que há tempos tem comido mais do que as necessidades e descobre qual é a quantidade o suficiente para o corpo em cada momento

  • Quando a pessoa começa a perceber um padrão de pensamento mais amoroso em relação à comida e o corpo

  • Quando a vontade de perder peso (caso a pessoa tenha) continua lá, mas ela percebe que quando pensa sobre isso não é algo que leva a desistir de tudo ou achar que nada tem valor

  • Quando a pessoa percebe que o corpo está faminto por movimento e começa a movimentá-lo simplesmente porque faz bem

  • Quando as primeiras resoluções de ano novo da pessoa são projetos do coração e não sobre perder peso

  • Quando a pessoa nota que a preocupação com a comida diminui, assim como os episódios de comer demais

  • Quando a pessoa começa a honrar e validar as emoções e encontrar outras formas de cuidar de si

  • Quando a pessoa se dá permissão para comer alimentos que gosta sem culpa, porque sabe que comer é um dos prazeres da vida


Para poder experimentar os itens acima é essencial que enquanto profissionais da área da saúde desenvolvamos a base firme na temática e isso significa:


  1. Definir e reconhecer a cultura da dieta, assim como suas sutilizas;

  2. Conhecer e se aprofundar em Mindfulness, Mindful Eating, Comer Intuitivo e olhar neutro para o peso

  3. Aprender sobre o Modelo Transteórico de Mudança para que saibamos como conversar e ações mais habilidosas para cada paciente/cliente;

  4. Mostrar para a paciente/cliente onde vocês estão indo, trabalhar com abordagem não dieta pode ser muito confuso se você não mostrar o mapa dos próximos passos;

  5. Aprender a ouvir as necessidades das clientes e ter uma paleta de práticas de Mindfulness, Mindful Eating e práticas de suporte que atendam essas necessidades;

  6. Aprender a diferença entre prescrever Mindful Eating e realmente experenciar;

  7. Expandir Mindful Eating no consultório para além da aplicação da régua da fome e saciedade;

  8. Saber como conversar sobre a frase “Eu quero perder peso” para que isso não vire um tabu e exista a ideia de que no Mindful Eating nunca falamos sobre o peso, se o peso corporal é algo que traz sofrimento precisamos falar disso;

  9. Estar em contato com profissionais mais experientes (supervisão/mentoria) e instituições como: Centro Brasileiro de Mindful Eating, The Center for Mindful Eating e outras

  10. Ter uma rede de apoio da abordagem sem dietas, algumas vezes pode surgir a sensação de estar nadando contra a maré e uma rede de apoio é algo muito benéfico, funciona como um refúgio

  11. Cultivar práticas de autocompaixão, a cultura da dieta é vasta e se oferecer carinho é essencial, já que seu trabalho como profissional da saúde na abordagem sem dieta é essencial e importa.


Que possamos juntas desenvolver confiança para nadar em direção a um mundo livre das dietas e em paz com o corpo


por Driele Quinhoneiro

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